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'A nova cara da Rocinha' - Revista Época
Um projeto inovador de urbanização mostra que é possível resolver o problema das favelas no Brasil


FLÁVIA MELO, 27 ANOS, MÚSICA

"Nascida e criada" na Rocinha, "com orgulho", Flávia faz licenciatura em Música na Uni-Rio e é bolsista na Aliança Francesa. Está grávida de dois meses. Já deu aulas de catecismo, foi do coral da igreja e fez teatro. "A urbanização dará uma vida mais digna. As pessoas vão praticar a paz, e não a guerra, e deixarão de jogar lixo pela janela", afirma FAMÍLIA OLIVEIRA MENDES
Josineide (Jô) Mendes Tavares, de 33 anos, e Francisco Oliveira Júnior, de 29, têm dois filhos, Laura, de 7, e Davi, de 9 meses. E uma cadelinha, Nala. Moram na Rua 2, que termina numa escadaria. No térreo, Jô trabalha como manicure em seu salão de beleza. O marido tem "o sacolão do Júnior", uma mercearia aberta todo dia até as 22 horas. No apartamento, há três TVs, programação da NET, freezer, lavadora de roupas, DVD, microondas, dois aparelhos de ar condicionado. Atrás da casa, passa uma vala aberta com lixo, esgoto e ratos
LAN HOUSES
Há cerca de cem lan houses na Rocinha. Esta é a In Cyber. Fica na Rua 1, entrada pela Estrada da Gávea 259. A garotada adora. Os jovens são os principais clientes dos jogos, pagam R$ 1,50 por hora. O acesso à internet custa o mesmo preço. Fica aberta até as 22 horas. A In Cyber localiza-se numa travessa que nem vê a luz solar por causa das construções irregulares que escondem o céu
PC, LÍDER COMUNITÁRIO, 56 ANOS
Paulo César Valério nasceu na Rocinha no tempo da lamparina. "Fui menino de rua, sem mãe nem pai. Andei com revólver 38 na cintura, tive irmão morto trocando tiro no morro. Mudei de vida. Fui trocador de lotação e fiz de tudo um pouco. Hoje, eu sou o orientador do meu filho. A família é quem passa os valores da vida certa", diz
WILLIAM DE OLIVEIRA, 36 ANOS, DA UPMMR
Ex-William DJ, ele é o poderoso presidente da União Pró-Melhoramento dos Moradores da Rocinha, porta-voz da comunidade. É ele quem fala com o presidente Lula e o governador Sérgio Cabral. Chegou a ser preso por conversas ao telefone com traficantes. Hoje, pelo carisma, dedicação e pose de galã, William desperta respeito e ciúme na Rocinha
TERRA ESTRANGEIRA

Sou, para os moradores da Rocinha, uma pessoa "de fora". Tão estrangeira quanto uma americana ou européia. Moro no Leblon, a dez minutos da favela. Quando dormi na casa da minha manicure alguns dias, na Rua 2 da Rocinha, a sensação foi a de ter entrado num livro de Luigi Pirandello (1867-1936), o autor siciliano de Assim É Se Lhe Parece. Decidi admitir que há várias verdades na favela, dependendo de quem olha. O primeiro impacto não foi a pobreza. O que me desbalanceou foi o ruído generalizado, a ebulição de gente como em Bangcoc ou Bombaim, os cheiros de comida boa e de esgoto. A moda despida, de top e short ou minissaia, os PFs abundantes a R$ 4, a qualidade da Fitness R1, uma academia de ginástica de três andares. Carros de som esbravejando festas, fórum cultural e liquidações, ônibus na contramão tentando domar curvas impossíveis, o enxame de 1.500 mototáxis na Estrada da Gávea 24 horas por dia. O funk "ah, ela vai rebolar, uh, uh, com tudo dentro". Famílias subindo e descendo escadas com um equilíbrio invejável. Quem não está acostumado fica tonto.

Não é só a vertigem normal de quem sobe numa laje no Laboriaux (pronuncia-se "laboriô" ou "laboriáux"), a parte mais alta da Rocinha. Avistam-se a Pedra da Gávea, a Praia do Pepino, de São Conrado, com condomínios de luxo. Em frente, o Morro Dois Irmãos, irreconhecível, por estar de costas. Do lado esquerdo, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor. Também provoca vertigem a mistura do profano e sagrado. Tem Beco do Rato, Beco do Amor, bairro da Vila Verde e da Roupa Suja... O que dá ibope é missa na igreja e baile funk. Fé em Deus e no Diabo. Shows da associação de moradores exibem faixas "Rocinha está em paz". Os do tráfico têm cervejas subsidiadas a menos de R$ 1. O clima não é de festa do interior.

O primeiro dia é mais tenso. Alguém da comunidade me acompanha pelas vielas. Há becos, cobertos por lajes, só com luz artificial, mesmo de dia. Nos "túneis" de pedestres, a contenção dos prédios, de concreto, é usada como prateleira de artigos. Buracos viram lojinhas. De imobiliária a funerária, a Rocinha tem quase tudo. O restaurante mais chique é o Varandas, com picanha na pedra e costela no bafo, na Via Apia. Depois, passo a andar só, uso mototáxi para circular. Foi o momento mais perigoso da estada: os raspões que dão nos ônibus. Capacete, esquece.

Rapazes passam armados. O número aumenta à noite. A arma preta ou cromada é adereço ou símbolo de status. Por que sinto mais medo da violência no asfalto que na Rocinha? Talvez por estar acostumada a reconhecer uma arma só quando ela está apontada para mim, o que não acontece ali. Moradores deixam a casa sem tranca, os bens estão intactos quando voltam do trabalho. O carro da Editora Globo ficou horas com o vidro aberto, por descuido, numa rua movimentada, com equipamento fotográfico, óculos, celular, tudo à vista. Nada foi mexido. A explicação dos moradores é que roubar pode custar a vida. Todo mundo sabe quem manda. Olhar para alguém armado ou fumando um baseado é interpretado como provocação. Os DPOs (postos policiais) só cumprem funções assistencialistas: dão carona a gestantes e idosos, apartam brigas de bêbado, empurram carros enguiçados.

Dormir na favela é saber que o barulho percorre a noite. Acordei de madrugada, no auge do baile na quadra. Ao fundo, sempre os mototáxis Honda de 125 a 250 cilindradas. Dormi de novo. A Rocinha faz festa o tempo todo, as famílias se visitam. Mas há medos. O filho será traficante? A filha dará à luz aos 13 anos? Será que somos o Alemão amanhã? - citando os 19 mortos na incursão das Forças de Segurança ao Complexo do Alemão.

Quando eu descia, a sensação era ter passado para "o lado de fora". Não pelas barricadas toscas de pedras do tráfico para "marcar território". É um muro invisível que divide dois mundos. Não que Leblon ou Ipanema sejam exemplo de civilização. Os canais são sujos, praias às vezes impróprias, calçadas esburacadas, seguranças truculentos em boates, assaltos no sinal de trânsito, motoristas alcoolizados e gente rica jogando ovo pela janela. São muitas as mazelas do asfalto. Mas, na Rocinha, o buraco é mais em cima.

Ruth de Aquino - Jornalista




Fonte: REVISTA ÉPOCA, edição nº 482 de 10 de agosto de 2007
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