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Quinta, 30 de Março de 2017
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Diretor fala de filme sobre comerciante-poeta que o compara a Waly Salomão
Hélio Rodrigues é uma pessoa que fala muito rápido, parece demonstrar a mesma pressa que Glauber Rocha tinha em fazer seus filmes. E a pressa não é a única semelhança entre Glauber e Hélio
Diretor fala de filme sobre comerciante-poeta que o compara a Waly SalomãoHélio, acaba de estrear como diretor no curta-metragem "A Via dPoesia", e conta a história do vendedor de doces que possui diferentes facetas artísticas, tudo isso em meio a agitada via de uma favela.

O homem que adoça a vida: conheça a história de Milton Moisés

Assista o video "A Via dPoesia".

O filme foi selecionado para a Mostra Informativa que acontecerá no Centro Cultural dos Correios, na categoria "Cultura Popular". Em etrevista ao SRZD, ele contou como foi a realização do filme, o atual modelo de incentivo a cultura, e a comparação que Hélio faz entre Miltom e Waly Salomão. Nas palavras de Hélio, que falou ao SRZD, o filme "não é nada Cinema-Morphina-Burguês. É Cinema Direto. A câmera continua na mão e a idéia agora "plasma na tela da história". É o "Novo Cinema in Tranze".

A gravação é tão empolgante quanto ver o resultado. Como foi a fase de pré-produção e produção?

Muito boa sua observação. Esse filme foi feito na raça (pediggre do germe vivo de um cineasta brasileiro). Feito sem incentivo, sem dinheiro (apenas o pouco que era meu) apenas, locomovendo a idéia aos que sempre "desacreditam" nos outros. Tive apoio periférico da TVROC, porém, como sempre as pessoas acham que tudo é "Vídeo", não se permitem investigar como será produzido com a linhagem de cinema. Fiz tudo sozinho. Sozinho, mas firme com a consciência dos amigos, que depositam energia e crença em mim. É no caso do seu Milton, eu disse a ele, que é "cinema de intervenção"; É cinema direto, algo que o cineasta pratica, ancorando o modo de interação de quem se vai documentar, usando o "neo-originalismo" do artista, com a ferramenta audiovisual. Você pode fazer o que quiser com o cinema ; Ele é entretenimento, inclusive usá-lo contra a própria indústria. Escrevi o roteiro de gravação, de 02hs da manhã até às 05hs. Uso cinema para aproximar o público com a mensagem.Tudo mundo acha que cinema é só efeito visual. A montagem tem que ser orgânica. O melhor foi mesmo conhecer seu Milton. Documentei seu Milton 6 horas seguidas e se eu tivesse mais 5 horas de paciência dele, ele me agraciaria com mais centenas de verdade de sua vida. Esse filme é simples, porém sofisticado e real na mensagem.

Por que escolheu falar sobre o tema tendo o Sr. Milton?

Por ele ser um "artista da palavra", artista da Poesia, artista da simpatia e da comunicação em amplos os sentidos. Ele representa um artista da cultura sob a efígie do artista in tranze. Ele é legítima identidade do artista da Rocinha. E por muito mais, minha profissão, requer que eu faça muito mais do que sentar a "bunda na cadeira" e dizer que sou Jornalista. Ser "Comunicador" vai muito mais além do achar que a favela, ou comunidade de bússulas, só é legal no "aquário audiovisual" ( TV ). Precisamos respeitar as artes da Rocinha. O Brasil do seu Milton precisa ser mais documentado, do que esse cinema burocrático, que só serve as "amizades de baixo gávea" e "baixo Leblon". Esse cinema burocrático como diz o meu outro grande amigo é só um "Cinema Novinho". Seu Milton é tema para longa ou "kilometragens" de idéias aqui ou na América latina. É por isso seu Milton é o "Novo Cinema in Tranze".

O filme é sobre ele, poesia, política etc. Onde essas partes se encontram?

Se entrelaçam na realidade. A voga de hoje é a cultura como instrumento político. Ou melhor, projeção política. Porém não acredito que o cenário audiovisual de cinema brasileiro (os que dominam) tá interessado em fazer política de fomento aos artistas anônimos, sobretudo, fazendo "escolas de audiovisual", para formar mão de obra. São todos os mesmos amiguinhos. Temos um "pólo de cinema" que só serve para locar estúdios. Não incentiva o cinema de base. A intersecção disso tudo, vale pela erudição que seu Milton fala no filme. Artista tem que produzir arte, "artiStar". O Governo entra com infra para o desenvolvimento (no caso do audiovisual, as cartas já estão rigorosamente marcadas) mas, vale o esforço em ofertar algo. Porém o que eu quero para Rocinha, é que todos pratiquem cinema, vendo que é possível, mesmo sem a "Rio Filmes" e ver quem já produz lá. Nesse país, quem não exige, rasteja. As produtoras não têm interesse em ensinar, para retro alimentar os profissionais. Ensinar ninguém quer. Falo disso por ínfimos estágios na área para os que moram na Rocinha e querem estudar cinema. Destaco o trabalho da Cia. De Cinema Barato, Observatório das Favelas entre outros etc..E tem exemplo melhor do que o Marcelo Yuka, que leva cinema para dentro de uma carceragem ?? A galera mais nova da Rocinha, precisa fazer cinema. Seja de "Bolso" (com cell) ou de forma, que eles tenham interesse em descobrir o Cinema Brasileiro. A Raiz não é a teia aviltada americana. Digo do cinema que não teve "escola". Nelson Pereira do Santos, Leon, Glauber Rocha, Joaquim Pedro, entender o Tarantino...(que é Glauberiano de "Rocha"). Já pensou exibir o "Deus e o Diabo" e Vidas Secas" num espaço aberto na Rocinha ? Esses filmes ainda são inéditos para muitos.

Para o filme, o que representa Sr. Milton na sociedade?

"A verdadeira fala da favela por ele mesmo". Jamais o "Cinema Novo ou Velho" falou em nome da Favela. A verdadeira presença de espírito de incentivo para um povo, simpatia, amizade e, sobretudo, uma mensagem visceral com a poesia. Ninguém assume seu modo de poesia. A poesia é a única arte que permeia as demais. Ele é o Artista in Tranze = Em total criação, em total liberdade de sonhar, fazendo o sonho ser menos distante, praticando arte menos "acadêmica". Não teve influencia de arte, de viagens ao "Moma, Tate Modern..", nada de galerias e escolas de arte. Ele é o nosso "Patativa do Assaré do sul". Ele revela, mesmo no silêncio, as suas vias de passado no espelho de seus olhos. Representa a reciprocidade dos valores humanos e éticos, que todos deveriam praticar no seu cotidiano.


Você diz que o documentário "encurta os "dragões da maldade" da cultura e endurecem os "santos guerreiros" que jamais perdem a ternura com um Cinema de guerrilha". Fale um pouco dessa relação que você criou ?

Dragões da Maldade são os que fazem usufruto do instrumento da cultura para beneficiar seus interesses políticos e pavimentar uma alienação cognitiva com a massa usando o audiovisual. Dragões da Maldade são àqueles que não dão oportunidade (fora da Rocinha) ao talento da Rocinha, quando esses, vão de encontro a eles, pedirem estágios para lapidar o talento. Seja desde carregar o fio ou montar um Grua. Esse talento tem que exportar para o Mundo. A Rocinha é um lugar de pessoas extremamente talentosas e extremamente eficazes, quando o assunto é cultura. Santos Guerreiros, somos nós, cineastas in tranze. São os cineastas que não submetem aos "roteiros neo-yuppies", para que cortem as idéias para realização. É preciso saber, quem são os dragões da maldade para combate-lôs. Cinema no Brasil sempre será cinema de protesto. O cineasta brasileiro, não pode viver "Shereka para sempre" ou de "Pornoxanxotas globais". Graças a deus tem o "Pré-sal". Mas cadê o "pré-sal-óh-mão" dos que querem "produzir" ? Como "dizia o Waly: - A memória é ilha de edição". Mas hoje, eu digo, que a "memória é uma ilha de edital". Não posso esperar que minha idéia "caduque" esperando uma aprovação de um órgão que só subsidia, amigos de quem, amigos do "tal" do "edital". Então..são esses mesmos, que querem cobrar um modelo cinematográfico. Prefiro que todos matem seus "egos" e depois discutam o assunto "Cinema com a população". Acredito que só os "Novos cineastas podem se organizar", por que os "Old-nuevos-cine", já estão fadados aos seus cercados. Pergunta para um "novo cineasta brasileiro", de quanto ele precisa para fazer um filme? O mantra ainda vale: - "Uma câmera na mão é hoje a idéia vira documento". Salve Alex Vianny, Glauber, Nelson Pereira, Eryk Rocha e o cinema pernambucano via os nomes Cláudio Assis, Lírio Ferreira é Marcelo Gomes". Esses são cineastas brasileiros.

Você chega a fazer uma comparação entre ele e o Waly Salomão. Como ela se dá?

Há uma falta muito grande na minha vida: não ter conhecido o Waly e Chico Science. Eles são pilares da "urbania", da "Intervenção" da criação e da poesia urbana brasileira. Waly é comunicação de vida para um comunicólogo. O Chico é descolonização cultural brasileira. Waly foi experimental. Waly e seu Milton tem vidas parecidas. O Waly foi muito discriminado, morou na praia, sobretudo por ser "Nordestino" no Rio de Janeiro. Waly é um poeta "poliphônico". Seu Milton traz Lyrica, poesia, cordel, pintura, simpatia é "sabedoria". E...Chico por sua vez, movimentou o maior berçário de criação : o Mangue. Pois Recife, em 1992 era quinta pior cidade do mundo. Disso surgiu um movimento pelos próprios artistas que moravam em cima do "Mangue" ( Recife ). Não há como dissociar Waly do Milton; apenas convertê-los em situação de ensino.

Qual efeito esse filme pode ter, quando exibido tanto em toda a Rocinha quanto nas escolas?

Encorajamento do processo de criação, reflexão cidadã, descoberta da poesia, conhecimento de artistas que moram ao seu lado, auto-estima para os moradores, inspiração de vida, comunicação - de fato, a serviço da população -, protesto cultural, ação política e sensibilidade estética. Hoje, os povos dominantes, sobretudo os americanos, tratam de legitimar uma dominação cultural por todo o mundo, impondo sua cultura e passando por cima das tradições culturais de todos os povos. Toda a dominação política e econômica inicia-se numa dominação cultural. É pífia a tentativa de reproduzir modelos americanos; atitude descolonizada, corajosa e inteligente é exportar nossa cultura para o mundo. Por que não podemos? É preciso lembrar que o Brasil é o caldeirão cultural que tem descendentes portugueses, espanhóis, africanos, holandeses, alemães, japoneses, italianos é indígenas. E que a Rocinha é amalgama desse inconsciente coletivo do Brasil. A síntese e o vértice do país.



Fonte: Hélio Almeida
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