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Segunda, 21 de Agosto de 2017
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Yvonne Bezerra de Mello: 'Nem toda criança pobre é bandida'
Em seu trabalho com meninos de rua, ela conheceu Sandro, o garoto que, anos após sobreviver à chacina da candelária, sequestrou um ônibus, fez refém e, cercado, pediu: "Chama a tia Yvonne". Muito por isso, há quem a acuse de proteger criminosos
Yvonne Bezerra de Mello: Nem toda criança pobre é bandida

Yvonne de Mello com as crianças. Foto: Daniela Dacorso

O telefone tocou tarde da noite. Bom sinal não era. Yvonne, que ainda não tinha ido para a cama, atendeu logo para não acordar o marido, o empresário Alváro Bezerra de Mello, vice-presidente da rede de hotéis Othon. Era uma noite como outra qualquer no apartamento em que moravam, em uma área nobre do Rio de Janeiro. E o dia seguinte prometia ser menos comum: acordar cedo para montar. Cavalos são a paixão de Yvonne. Depois, ela iria à academia. A ligação, portanto, aconteceu em péssima hora. Do outro lado da linha, a voz desesperada de uma criança pedia ajuda. Yvonne só precisou de segundos para entender o que ocorrera: oito das 72 crianças da Candelária com as quais trabalhava tinham sido assassinadas. Ela saiu correndo. Era 23 de julho de 1993.

Yvonne Bezerra de Mello, 61 anos, é carioca, filha de uma funcionária pública e um comandante da Marinha. Estudou na França, na Sorbonne, onde conheceu seu primeiro marido, um diplomata sueco, com quem teve três filhos. Na Europa, trabalhou como intérprete simultâneo, fez mestrado e doutorado em linguística e filologia e saiu de lá fluente em seis idiomas. Quando, em 1989, separada, voltou ao Brasil, tinha 34 anos. Assim que chegou, notou o enorme número de crianças nas ruas e decidiu que iria trabalhar com elas, alfabetizando-as e ensinando-lhes algo a céu aberto. É parte de uma ideologia antiga: ela sempre acreditou que só diminuindo o abismo educacional entre as classes o Brasil irá melhorar. Foi, então, para a Candelária, onde, na época, meninos e meninas se agrupavam às dezenas. Lá, conheceu Sandro Nascimento -um dos sobreviventes da chacina, que, sete anos depois, sequestrou o ônibus 174 e foi o protagonista de outra tragédia, televisionada em rede nacional e encerrada com a chocante morte da refém. Yvonne fez seu mesmo trabalho com Sandro e, de certa forma, com ele fracassou.

Hoje, depois de lidar com mais de 2 mil crianças de rua, ela é tida por uma parcela da elite carioca como a mulher que ajuda bandidos, muito por causa da trajetória de Sandro -depois do sequestro do ônibus, ele foi detido pela polícia e morreu no camburão, conforme divulgado, por asfixia. A história até virou um longa de ficção, Última parada 174.

Naquela noite de 23 de julho de 1993, a vida de Yvonne começava a mudar radicalmente. Ela não sabia, mas a morte dos meninos acabaria, anos depois, salvando vidas. Ao chegar à Candelária, ela viu oito corpos no chão e dezenas de meninos correndo e gritando. Ali entendeu que era preciso fazer mais: nascia em sua cabeça o Projeto Uerê, que recupera, por meio da educação, crianças com poucas chances na vida - e se sustenta com doações e apoio de empresas. Num país de realidade distorcida como o nosso, Yvonne pode ser considerada marginal, protetora de bandido mirim. Numa sociedade menos míope, ela seria apenas uma mulher ordinária capaz de gestos extraordinários.

Marie Claire Como a chacina da Candelária mudou sua vida?
Yvonne Bezerra de Mello
Foi decisiva para a criação do Uerê. Meu trabalho não era organizado. Ali percebi que tinha um compromisso comigo e com os meninos de rua.

MC O que você fez depois da chacina?
YBM
Fui fazer doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e também na Loyola University, em Chicago (EUA), e comecei a desenvolver um projeto para preparar o cérebro de crianças sem estímulo, para que sejam receptivas à informação e ao armazenamento desta. [Em 2007, ela recebeu, na Alemanha, o Prêmio Paz no Mundo e Cidadania, da União Europeia, pela metodologia aplicada pelo Uerê no Complexo da Maré.]

MC Por que você foi a primeira pessoa a chegar à Candelária, antes da polícia?
YBM
Todas as noites, antes de ir para casa, deixava três fichas telefônicas com os meninos para que eles me ligassem se alguma coisa acontecesse. Assim que os tiros começaram, um deles me ligou. A cena era de massacre, não tinha ninguém lá ainda, nem polícia, nada.

MC Você entrou em pânico?
YBM
Fiquei angustiada, mas aquilo era previsível porque os meninos eram ameaçados todos os dias. Eles me contavam que os policiais falavam: Nós vamos vir de noite para matar vocês.

MC E não lhe ocorreu denunciar que eles estavam sendo ameaçados?
YBM
Fui à Subprefeitura do centro e avisei. Fiz o que me cabia. O governo tinha que fazer algo, só que nunca fez.



Fonte: Por Milly Lacombe
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