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Ex-capitão do Bope critica falta de estrutura no episódio do ônibus 174
Pimentel revela que Bope estava desvirtuado, "combatendo em favelas". Para ex-PM, quase toda sociedade carioca queria enforcar o sequestrador
Ex-capitão do Bope critica falta de estrutura no episódio do ônibus 174

Rodrigo Pimentel diz que função do Bope estava desvirtuada na época do sequestro.
(Reprodução: TV Globo)

Rodrigo Pimentel era policial militar na época do sequestro do ônibus 174, mas já estava afastado do Batalhão de Operações Especiais (Bope), onde foi capitão por muitos anos. O Bope é considerado a tropa de elite da corporação. O motivo do afastamento de Pimentel foram as críticas que ele tinha feito à própria PM no documentário “Notícias de uma Guerra Particular”. Mais tarde, Pimentel envolveu-se com cinema. Foi co-produtor do documentário “Ônibus 174” e um dos roteiristas de “Tropa de Elite”. Hoje, ele é consultor se segurança.

Veja, a seguir, a entrevista que Rodrigo Pimentel concedeu ao G1.

Onde o senhor estava no dia do sequestro do ônibus 174?

Rodrigo Pimentel - No desenrolar do evento, eu estava no gabinete do chefe do Estado Maior à época, que era o coronel Wilton Soares Ribeiro. A gente acompanhou o sequestro na TV e na internet. Acho que foi o primeiro grande evento midiático que foi possível acompanhar pela internet. O Sandro fez um disparo, simulando a morte de uma refém (Janaína Neves). A gente descobriu que a Janaína não tinha morrido graças a informações da Globo News.

Particularmente, deixando de lado a condição de policial militar, de agente do estado, o que o senhor sentiu no dia?

Na época, eu era policial, e a minha percepção é de policial. No nosso íntimo, o sequestro provocou uma sensação de impotência. A gente sabia que o Bope não estava preparado tecnicamente, com a infraestrutura necessária. Pela primeira vez, eu vi oficiais do Bope emocionados. Logo após o evento, um oficial do Bope foi lá em casa e chorou de indignação, de revolta, por ter tudo falhado. Foi um sentimento de impotência muito grande. Nós prevíamos o tempo todo que isso iria acontecer. A gente dizia para os nossos chefes imediatos: “Se ocorrer um crime com reféns, não estamos preparados.” Em um sequestro com reféns, o Bope tem que ter o pensamento dos bombeiros: a prioridade é salvar vidas humanas. Agora, na minha percepção de cidadão, eu acho que o Marcelo (Marcelo Santos, que fez o disparo contra o sequestrador, Sandro do Nascimento, mas acabou acertando a refém, Geisa Firmo Gonçalves) queria mais a morte do bandido, personificando o Bope. Mas seria errado individualizar essa ação no Marcelo. Hoje, tecnicamente falando, a gente percebe que o resultado morte do bandido era tão importante quanto salvar a refém. Quando o Marcelo avança, eu, como cidadão, percebo que ele avança contra o seu inimigo natural: o bandido, o marginal da favela.

Como você analisa a ação do Bope no sequestro?

As unidades policiais especiais, entre elas a Swat, dos Estados Unidos, existem com a finalidade de resgatar reféns em situações de barricada, seja por motivo econômico, ou político, ou religioso, ou com um sequestrador mentalmente perturbado. O Bope vinha sendo usado de uma forma desvirtuada, em combate em favelas. A gente sabia que a unidade não estava preparada tecnicamente, com infraestrutura. Nossas demandas não eram atendidas. A tropa devia estar equipada com fuzis e rádios de última geração. Tinha que estar aquartelada, treinando. O local do sequestro do ônibus 174 não estava devidamente cercado, nem isolado. Naquele dia, os homens do Bope estavam em uma operação no Morro Santa Marta. Eles estavam na favela desde a manhã daquela dia, sem almoço, e foram para o Jardim Botânico. Neste dia, veio tudo à tona: nosso despreparo, nossa falta de treinamento, nossa precariedade até mesmo na questão de recursos humanos. O resgate em reféns foi relegado a um quarto plano. Estávamos empenhados em combate a favelas.

E como você analisa a morte do Sandro, dentro do camburão, depois de ter entrado vivo e sem ferimentos?

Baseado no entendimento do tribunal do júri, a quase totalidade da sociedade carioca queria estar naquela viatura do Bope enforcando o Sandro Nascimento. O tribunal do júri decidiu pela absolvição em uma votação de 4 a 3. mesmo assim, o promotor não pediu a condenação por homicídio qualificado. O próprio Ministério Público não botou uma pressão. Aquele resultado atendeu a todo mundo. Eu não apoio a execução de bandidos de forma alguma, mas sou solidários a todos os policiais que ali estavam. Eu não sei, você não sabe, ninguém sabe quais as condições dos policiais naquele camburão.

Em uma reportagem, você manifesta uma certa frustração, a princípio, com o filme “Ônibus 174”, que colocaria o Sandro do Nascimento quase como um herói, por contar a história da vida dele. Hoje, qual sua Isso foi verdade? Se sim, você ainda tem essa opinião?

Eu nunca deixei de ser amigo do Padilha (José Padilha, diretor do filme). No meio da edição, eu vi um filme sendo construindo em cima da história do Sandro. No quarto corte, eu vi que o filme ficou muito pró-Sandro. Mas quando ficou pronto, eu vi que eles souberam dosar. O Padilha soube dosar isso. A polícia não é crucificada. Aquilo foi dosado quando o Padilha pergunta “o que você acha do Sandro”, para a Luana e a Janaína (Luana Belmont e Janaína Neves, que foram reféns no sequestro). Se não tivesse isso, o filme seria pró-Sandro, e o colocaria como vítima. Por um momento, eu fiquei preocupado de o Sandro ser transformado em um herói brasileiro, por ser um excluído.

Dez anos depois do sequestro do 174, o que mudou na segurança pública, na Polícia Militar, no Bope e também nas condições sociais que levam jovens ao tráfico e à criminalidade?

Se o evento do ônibus 174 fosse hoje, nada daquilo teria ocorrido. Depois desse caso do 174, eu acho que o Bope se aperfeiçoou. E acho que a questão da segurança pública no Rio está caminhando de forma gradual e lenta para um processo de melhora.



Fonte: Bernardo Tabak Do G1 RJ
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