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174: Para ex-secretário, muitos 'Sandros' ainda são criados
Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança do Estado, critica corrupção das polícias do Rio. Para ele, condições socioeconômicas deixam grupos humanos vulneráveis
174: Para ex-secretário, muitos Sandros ainda são criados

No ano 2000, o antropólogo Luiz Eduardo Soares estava em Nova York, nos Estados Unidos, quando o ônibus 174 foi sequestrado. Soares fora exonerado pelo então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, da Coordenadoria de Segurança, Justiça e Cidadania, em 17 março daquele ano. O motivo da demissão foram as denúncias do antropólogo de que existia uma “banda podre” na polícia do Rio de Janeiro, formada por policiais corruptos.

Ameaçados de morte, Soares e a família deixaram o país. Quando retornou, ele foi convidado para ser Secretário Nacional de Segurança Pública.

Veja, a seguir, a entrevista que Luiz Eduardo Soares, hoje com 54 anos, concedeu ao G1 sobre o sequestro do ônibus 174.

G1 - Onde o senhor estava no dia do sequestro do ônibus 174?

Luiz Eduardo Soares - Em Nova York, por conta da minha exoneração. Eu tinha falado publicamente que havia uma banda podre na polícia. As políticas implementadas por mim eram muito inovadoras, e geraram resistências imensas, por contrariarem interesses dos policiais corruptos, na medida em que colocamos um controle externo da polícia. Eu recebi ameaças, assim como outros cidadãos inocentes. O governador (Anthony Garotinho) teve que se posicionar, e eu acabei exonerado. Tive que sair do país imediatamente, porque eu e minha família estávamos ameaçados de morte. Tomei conhecimento do sequestro do ônibus 174 pela internet. Eu trabalhava conectado, e foi uma notícia nacional e internacional. Em um primeiro momento, não tive acesso às imagens e acompanhei o noticiário que era atualizado pelos sites jornalísticos. Só depois assisti às imagens.

Particularmente, deixando de lado a condição de ex-coordenador da segurança pública do Rio, de agente do estado, o que o senhor sentiu no dia?

Os meus sentimentos foram iguais aos de qualquer um. Eu tinha uma preocupação profunda com a vida dos inocentes. Mas também entendia a situação dramática, perturbadora e patética do Sandro (Sandro do Nascimento, sequestrador do ônibus 174). Ao mesmo tempo pensava na vida daquelas pessoas no ônibus. Tive medo do que aconteceria com elas. Por outro lado, eram sentimentos diferentes dos usuais. Eu vinha do Rio em um exílio por causa de uma disputa muito violenta contra a banda podre da polícia. Eu lutava contra desarranjo e a anarquia das instituições policiais do Rio. No sequestro do 174, vi um retrato do que eu sempre denunciara: a polícia batendo cabeça, absolutamente incompetente, produzindo o resultado que nós vimos. Vi o despreparo, a anarquia, a desordem e a politização do fato. A Polícia Militar não conseguiu fazer o mais elementar, que era cercar o evento. Havia negociadores sem norte, sem rumo, batendo cabeça. A estratégia tinha que ser muito bem definida. Neste sequestro, havia um retrato da nossa crise social.

Como o senhor analisa a ação do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da Polícia Militar, no sequestro?

Ao longo desses dez anos, isso já foi comentado e analisado. Foi uma série de equívocos e erros. A abordagem do sequestrador foi equivocada: o policial erra um tiro de uma proximidade que não poderia errar e acaba acertando a própria vítima, e contribui para matar tanto a vítima quanto o sequestrador.

E como o senhor observa a morte do Sandro do Nascimento pelos policiais do Bope, por asfixia, dentro de um camburão, depois dele ter sido capturado vivo e sem ferimentos?

Isso faz parte desse conjunto de erros, de equívocos. No final, foi um crime perpetrado pela polícia: representantes do estado matam um acautelado. O crime acabou sem punição. É mais um erro na cadeia de erros. É um conjunto de erros trágicos.

E sobre a absolvição dos policiais?

Trata-se de um homicídio grave. Por outro lado, essa execução extrajudicial exprimia a vontade do povo, que clamava por vingança. O policial apertou o pescoço do rapaz com a energia da massa. As mãos dele se ligavam à massa de populares. O policial foi o instrumento dessa massa: a mão, a disposição e a energia dessa massa de linchadores. Como essa massa clamava pela execução, o júri legitimou e chancelou o linchamento e a vingança. Foi trágico. Todos os princípios de civilidade foram enxovalhados, seja pela massa que clamava por vingança, seja pela polícia. O policial não está lá para se deixar levar pelo desejo de vingança da massa. Mas é muita hipocrisia jogar toda a responsabilidade sobre o policial. Temos toda uma estrutura política, institucional e da massa agindo.

Depois de 10 anos, o que mudou depois do sequestro do ônibus 174 na segurança pública, na Polícia Militar, no Bope e também nas condições sociais que levam jovens ao tráfico e à criminalidade?

Eu acho que as questões fundamentais permanecem intocadas. Houve melhora em alguns níveis. Em outros, piora. O Brasil melhorou. Do ponto de vista da segurança pública, várias iniciativas se multiplicam. Mudou a percepção dos gestores, dos profissionais. Acho que a gente avançou. O Ministério da Justiça criou o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), que tem uma visão muito mais avançada e democrática. Por outro lado, houve aspectos negativos. A polícia do Rio, de maneira geral, piorou, apesar dos jovens que entraram. A questão da corrupção piorou. As polícias Civil e Militar do Rio são as mais violentas do mundo. Houve 7.854 pessoas mortas em ações policiais, entre 2003 e 2009. Muitas foram mortas em ações legítimas, mas houve muitos casos de execuções extrajudiciais. Esses números são escandalosos. São recordes mundiais. Hoje, o Rio de Janeiro enfrenta um grave problema, que não é mais o tráfico, mas sim a milícia. Policiais comandam milícias, que chegaram a ter alguns de seus líderes ocupando cargos no parlamento estadual e municipal, com deputados e vereadores. A degradação policial é hoje O grande problema da segurança pública do Rio de Janeiro, apesar de haver muita gente boa tentando reverter esse processo. O Brasil melhorou, muitas regiões avançaram, mas aqui no Rio houve a degradação das instituições. As questões de fundo permanecem intocadas: as que produzem “Sandros” e as que produzem o clamor popular pelo linchamento vingativo.

No documentário “Ônibus 174”, o senhor fala que o Sandro do Nascimento era invisível para a sociedade. Como está a situação dos “invisíveis” hoje?

As condições sociais e econômicas do Brasil deixam vulneráveis grupos humanos, que ficam expostos à situação de humilhação, de deterioração da autoestima, de carência de educação. Os contextos familiares estão conflagrados, em função de crises socioeconômicas graves. Ainda convivemos com essas questões todo dia no Brasil.

Fonte: Bernardo Tabak Do G1 RJ / Foto: Banco de Imagens
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