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Sábado, 29 de Abril de 2017
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A favela das estrelas, dos jogadores, artistas e pagodeiros
Porque será que o morro exerce tanto fascínio em algumas pessoas famosas ou do meio artístico?
A favela das estrelas, dos jogadores, artistas e pagodeirosFlora Gil e Ocimar Santos em 2002, na época dos encontros musicais da antiga locadora Astral 2 no Bairro Barcellos. Foto: Arquivo

Porque será que os becos e vielas, os barracos engalanados, o burburinho carcterístico, o funk, e outros assuntos mais proibidos, atraem tantas personalidades para o interior das favelas? Muitos moradores comuns quando se deparam com algumas de suas estrelas, bêbadas ou drogadas, se comportando como se anônimos fossem, ficam desapontados, decepcionados, e muitas vezes se negam a acreditar. Só porque a pessoa é artista não pode beber, ir á um boteco, trasgredir regras, como milhões fazem á todo momento pelo mundo? Acho que o problema está aí, na obrigação do zelo pela imagem. A gente acha que eles não fazem cocô, porque são artistas, e eles sabem que são tão de carne e osso ou até mais do que a gente, pois são dotados de altas doses de sensibilidade e muitos problemas existenciais. Já o cidadão comum de favela, não tem tempo para depressão ou outras balelas porque precisam desse tempo para matar um leão por dia na tentativa de melhorar de vida.

Ao meu ver, como produto do morro, nascido e criado nesta comunidade, e detentor de uma alma meio artística, creio que nós favelados, somos muito mais fortes, muito mais reais, e muito menos propensos a adquirir síndrome do pânico, depressão ou qualquer outro distúrbio emocional, do que os artistas televisivos e estrelas de todos os tipos. Um indivíduo altamente popular, que não consegue nem andar tranquilo pelas ruas sem ser incomodado, e que ás vezes tira um tempo para tentar ser normal, andar de chinelo, fumar um cigarro, fazer o que está afim, corre o risco de descobrir na prática, que infelismente não é possível viver como uma pessoa normal. O contraste dos dois mundos e a falta de tato para gerir a fama muitas vezes gera a  necessidade de um combustível a mais para aguentar esse rojão. Realmente, não é mole ser artista. Isso, claro, não é apologia ao uso de drogas, mas sim a certeza de que é impossível falar desse assunto de forma honesta fingindo que essa relação não existe. Mas, ao contrário do que muitos desinformados possam pensar, nem todo famoso que sobe morro por conta própria vai atrás de drogas ou aventuras bandidas. Existe vida inteligente nesse universo mal compreendido.

Lembro de uma grande estrela global, numa época em que teve sua imagem arranhada pelo mídia após assumir a sua dependência química. A atriz não saía da Rocinha. Frequentava sempre o mesmo bar, e tinha uma certa proteção, um silêncio á seu respeito, ningém a incomodava. Caramba, também, sua vida pessoal tava sendo defenestada na mídia, ela era impotente para lutar contra as drogas e os malefícios que a fama trás, e ainda encontrou um ambiente que ajudava a camuflar o seu drama. É fácil explicar porque aquela loira de beleza conservada, cabeça cheia de grilos e uma vontade louca de jogar tudo pro alto, no auge de sua fama, não saía da favela. Certos confortos e emoções, só a favela sabe dar. 

Num outro prisma, no envolvente universo cultural, Flora Gil, a esposa do ex-ministro da cultura Gilberto Gil, se embrenhou de corpo e alma pela maior favela, na época da ex-casa de cultura. Um grande fascínio pelas coisas do lugar a pegou de jeito, e ela se envolveu bastante a frente de projetos na ãmbito da cultura; hoje, acho que os motivos que a ligavam á Rocinha desapareceram, e ela também desapareceu junto com eles. Também é difícil esquecer a emoção de Cláudia Leitte naquele megashow da extinta Arena do Esse. E o rapper Ja Rule? Se a gente se distraísse por um momento, ou exagerasse na Ice, iria achar que ele era um funkeiro como muitos outros da favela, o cara parecia produto daquele meio. A Rocinha e os seus tantos encantos...


Adriano e Vagner Love, raízes na favela

Hoje, os famosos da vez, postos em evidência pelos seus estreitos relacionamentos com as favelas que gostam assumidamente de frequentar, jogam no clube mais popular do país. Os jogadores vem de origem humilde e não usam drogas ilícitas. Bem... só por essa última afirmação (e quem é do morro sabe disso), eles até que são estrelas raras se comparados a outros casos que não vale á pena mencionar. Vagner Love e Adriano são do morro sim senhor, falam a linguagem do morro, tem a essência do morro e são pessoas simples, humildes e simpáticas. Os ídolos brasileiros são adoradas nas favelas que frequentam e tietados por seja lá quem for, nesse país intitulado o país do futebol. Tá na hora de deixá-los em paz.

Fico pensando... ganhando os milhões que ganham, sobrevivendo ao ócio que assola a maioria dos menos favorecidos desse país, fica difícil imaginar que eles queiram andar na contramão de suas histórias. Fica difícil achar que pessoas como eles são infantis ao ponto de trocar o título raro de vencedor, do qual eles são merecedores, pelo outro, que eles conhecem muito bem, e por conhecerem bem, conservam o mais devido respeito.

Se os dois craques do Flamengo pudessem, tivessem esse poder, apertariam um botão mágico e tirariam todos os seus irmãos de classe, da vida difícil que eles sabem que a maioria dos amigos vivem. Aí vem aquela história, vida difícil, mas liberta, feliz, livre de depressões e demônios da fama. Vida que seduz e entorpece os mal preparados. Mas digo com a clareza de quem responde pela Rocinha num Portal que conversa com o mundo, uma vida fascinante o suficiente, para trazer pessoas dos quatro cantos do universo, simplesmente para vê-la de perto.

Eu sou tricolor de coração, mas o Império do Amor, esses dois craques do futebol mundial, para mim são os verdadeiros embaixadores das favelas. Um exemplo que qualquer moleque favelado sonha em seguir. Quem não gostaria de ser igual a eles nas periferias urbanas? Uma história de vida, de superação, exemplos que devem ser multiplicados, craques da bola, craques da vida.

O Love tem a clareza e o embasamento sobre isso tudo, fala disso como se tivesse falando do resultado de uma partida de futebol. O Adriano já é mais visceral, menos curado das origens, perigosamente sentimental. Tenho extrema admiração por esses caras, acima de tudo pela coragem e sinceridade deles. Nasci no morro, mas moro fora da Rocinha há sete anos, desde que me casei. Numa pista esvaziada, levo pouco mais de um minuto pra chegar na subida da Estrada da Gávea, saindo da minha casa. Na realidade, apenas durmo fora da Rocinha esses anos, e jamais vou admitir que nunca um dia, mesmo que eu me torne famoso, alguém venha me criticar por adentrar a favela da minha vida. Eu já fico puto com aqueles Pms que me param todo dia na saída da Rocinha, próximo ao Largo da Macumba, com a mão no coldre, desferindo sempre as mesmas  perguntas? "Mora aonde irmão?!", "Tá vindo daonde?!" Sem comentários...

Depois que inventaram a tal da associação ao tráfico, fica sempre á margem de interpretações mal feitas: políticos locais, comerciantes, lideranças comunitárias, pessoas populares, conhecidas, ou famosas, que lideram ou desenvolvem projetos sociais na favela. Sobretudo, porque não se separa CONVIVÊNCIA de CONIVÊNCIA nesses julgamentos midiáticos. Ninguém aqui tá dizendo que as coisas que saem nos jornais são mentirosas. Apenas acho que o cara deve ser julgado por associação ao tráfico, quando ele tem alguma vantagem ilícita do relacionamento com traficantes, ou quando ganha dinheiro por isso. Agora, ser acusado de associação só porque conhece, cumprimenta ou fala com um traficante no morro que é nascido e criado, é brincadeira. Foi assim com William de Oliveira, o ex-presidente da Associação. Como se os representantes comunitários das quase mil favelas dessa cidade não fossem obrigados a conviver com forças paralelas, simplesmente porque o estado é omisso e incompetente para tratar do assunto.

Vê se faz sentido? você conhece o cara muito antes de ele ser bandido, da época da escola, de moleque, conhece a família dele, todo mundo, aí por algum motivo ele vira bandido e você fala pra ele: "Não vou mais falar com você porque não falo com bandido". Muitos que vi portando fuzil, hoje, foram empregados através do Balcão de Empregos da Rocinha. Estão aí, trabalhando em cozinhas de restaurantes, em empresas ou na iniciativa privada. Tudo bem que foram eles que quizeram largar essa vida, mas como que uma oportunidade, um incentivo, pode salvar uma alma! Por falar em alma, muitos ex-bandidos hoje também estão pertencendo a falange do senhor, pois aos olhos de Deus todos merecem uma segunda chance. É preciso refletir, pois aqueles que são execrados pela sociedade, muitas vezes não são algozes, mas sim vítimas, desse sistema que privilegia poucos que tem muito, e marginaliza a maioria que não tem nada. É fácil falar do favelado, difícil é trocar de lugar com ele. No país das desigualdades sociais e do conceito prévio, da omissão e do descaso, a gente não deve dar ouvidos a hipocrisia, ela é a inimiga das mentes inteligentes.

Trocando em miúdos: É preciso entender melhor os artistas como seres humanos, é preciso enfraquecer o discurso de que favela é lugar de bandido - até o Lula se emputeceu com isso. É preciso saber separar o joio do trigo, é preciso largar o Império do Amor em paz, é preciso conhecer melhor a realidade das favelas, e dar mais valor ao potencial humano da Rocinha. Para isso até que podemos ajudar, usem sem moderação, o Portal da Rocinha Real: ROCINHA.ORG



Fonte: Ocimar Santos - Editor do Portal Rocinha.org / 'É o primeiro Editorial que escrevo nessa fase do novo portal, espero que gostem'
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Postado 10/3/2012 20:51:47
disse:Parabens pelo seu site, colega! Nao gosto muito de fazer rcoentamios, mas o seu site esta muito bom mesmo! Continue com esse bom trabalho!
Magé
Postado 12/8/2010 21:44:53
è verdade mano, todo mundo que conhece bandido, tambem é tirado como bandido por uma menoria de fdp que nao tem o que fazer, e fica vigiando a vida dos outros pra inventar fofoca. porque nao perdem esse tempo pra ver os desvios publicos do estado, que é muito mais preocupante. ver a merda que ta essa saude do rj. uma pouca vergonha, um abuso com o povo que sofre de varias doenças e tem que gastar o pouco que ganham com remedio.(a verba da saude é pouca pra ser roubada). paro por aqui se vo fala bestera...
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