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Quinta, 30 de Março de 2017
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O negro no Brasil : Verdades inconvenientes

A declaração do cineasta estadunidense é uma constatação da realidade brasileira; seria absurdo legitimar o discurso elitista de que no Brasil não há preconceito pela cor da pele das pessoas. Apesar de alguns teóricos brasileiros, como é o caso de Gilberto Freyre, ter defendido em sua obra Casa Grande e Senzala (1933) o mito da democracia racial, onde coexistiriam bons senhores e escravos submissos, a história e a realidade que se apresenta na contemporaneidade, nos levam a polemizar e conseqüentemente refutar qualquer teoria que defenda que aqui em solo brasileiro todas as classes, indistintamente de matriz européia ou africana sejam tratadas com igualdade de oportunidade por parte do Estado brasileiro.

Segundo a teoria defendida por Dennis de Oliveira (2012), o Brasil tem uma forma de racismo marcada por ambivalências, à medida que a maioria da população admite a existência do racismo e o condena, mas também a maioria se assume como racista. Isto se deve ao fato de que o racismo se perpetra contra um segmento social majoritário da população, o que dificulta a sua invisibilidade. Esse sentimento ambivalente está no fato de que não há uma relação de alteridade, pois o racista sempre é o outro; nunca se reconhece esse outro em si mesmo.

Há estudos que corroboram com teoria por hora aqui defendida, que de fato o racismo é presente no anfêmero do povo cordial. Aos negros no país, historicamente sempre fora imposto à pior parte; o chicote e o trabalho forçado. Na pós-escravidão, quem governava o país na época simplesmente os ignorou, abandonando populações inteiras de ex-escravos a própria sorte. Essa atitude irresponsável do Estado brasileiro em relação aos negros contribuiu para a disseminação de uma cultura de exclusão dessa parcela da população. A guetoização dos ex-escravos levou ao enraizamento da idéia do negro preguiçoso, violento e inapto a participar ativamente da tomada de decisões e do processo de desenvolvimento do país.

Quando analisamos os dados disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não sobram dúvidas quanto aos sofrimentos e descasos que ainda em pleno século XXI são reservados as populações de matriz africana no Brasil. Segundo o IBGE, negros e pardos recebem menores salários em relação aos brancos; no geral permanecem menos tempo na escola; são as maiores vítimas de homicídio; lideram o ranking de pessoas desempregadas; é algo em torno de 46% da população brasileira, mas correspondem a 66% do percentual de pobres; mortalidade materna é maior entre as mulheres negras, sendo que metade dos óbitos devido a aborto é por aborto espontâneo. Ora diante de tantas problemáticas que evidenciam a existência da disparidade econômico-socio-educacional entre brancos e pretos, torna-se evidente a existência do preconceito racial. Vergonhosamente só agora no mês de março/2013 foi reconhecida através de uma PEC a igualdade trabalhista dos prestadores de serviços domésticos na tentativa de corrigir resquícios da época da escravidão.

O efeito perverso do desprezo em relação aos negros, por parte do estado Brasileiro, contribuiu para a perpetuação de diversas desigualdades de oportunidades ao longo dos anos. Como já fora abordado, podemos afirmar no que diz respeito à moradia, educação, serviços de saúde, segurança pública, entre tantos outros dissabores os negros estão mais propensos a sofrerem as conseqüências da omissão dos poderes constituídos.

Quem é que nunca escutou ou até mesmo utilizou da expressão "é negra" ou "é um negro limpo" ou "é negro, porém trabalhador ou inteligente". Ora, por acaso onde está escrito que o fato de ter o tom de pele escura faz com que a pessoa não seja asseada ou inábil ao trabalho ou estudos; isso é um tipo de opressão que precisa ser banida do modo de ser e agir das pessoas em relação às populações de matriz africana; a sociedade brasileira precisa se modernizar em relação à sua composição não homogênea quanto ao quesito cor. Não podemos esquecer que o Brasil é uma colcha de retalhos com remendos mal costurados propositalmente objetivando a manutenção de algumas desigualdades sociais.

Eu sempre digo que nos EUA avançaram-se muito mais em relação às políticas do governo voltadas para os afro-americanos. Lá apenas 15% da população é negra, entretanto quando realizamos uma análise comparativa, percebemos que a comunidade negra norte-americana, mesmo com todo ódio não disfarçado nos estados sulistas daquele país, lutaram contra a discriminação racial e pelos direitos civis dos negros através de Mather Luther King e conseguiram conquistas relevantes ao longo dos anos.

Nesse diapasão reconhecemos que é temeroso rasgar o verbo e dizer "verdades", quiçá não absolutas. Mas cá entre nós essa é a dura realidade. Diferentemente da teoria defendida por FREYRE (1933) tudo que não temos aqui é integração. Talvez haja uma integração relativa, mas não absoluta. Não podemos pensar que o fato do povo se misturar nas festanças de rua, nas rodas de samba, nos estádios de futebol etc. que isso é sinônimo de igualdade; na verdade esse é o disfarce; essas festas populares é o anestésico que paralisa uma possível agudização das problemáticas sociais que atingem as populações de origem africana.

O racismo no Brasil é evidente e precisamos combatê-lo, por mais que haja um estranhamento quando nos propomos a discutir a problemática, torna-se necessário reconhecer que não há a tal democracia racial tanto ostentada por nossas instituições, e que vergonhosamente temos uma divida corrigível com as populações remanescentes da escravidão.



Fonte: Joel Mesquita de Souza - Cientista Social e Escrivão de Polícia
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